Sob Hemisférios da Emancipação
Histórias Atlânticas da Escravidão e da Liberdade:
Palenques, Mocambos, Cimarrones, Quilombos, Cumbes, Rochelas e Maroons (Séculos XVII-XIX)
Nas margens das sociedades escravistas das Américas, a fuga não foi apenas um ato de recusa, mas a fundação de novos mundos. De roceiros negros a comunidades fortificadas, milhares de africanos e seus descendentes forjaram espaços de autonomia, agricultura e economia própria. Este projeto, contemplado pelo Edital Cientista do Nosso Estado (2025) da FAPERJ e liderado pelo liderado pelo Laboratório de Estudos de História Atlântica (LEHA-UFRJ), rompe as fronteiras nacionais para conectar, pela primeira vez em uma plataforma unificada, as histórias de resistência do Brasil ao Caribe.
Territórios e regiões
O foco do projeto contempla análises conectadas e comparativas que revelam a formação de um campesinato negro nas Américas. Descubra como os Quilombos no Brasil, os Palenques na Colômbia e os Maroons na Jamaica não foram eventos isolados, mas parte de uma rede hemisférica de luta pela terra e dignidade.
Brasil: de Palmares às fronteiras amazônicas
O Brasil recebeu 46% do tráfico transatlântico, gerando a maior sociedade escravista moderna. Aqui investigamos: (a) comparações entre a República de Palmares e outras formações longevas (Séculos XVII-XVIII); (b) o surgimento de comunidades nas zonas de mineração (Minas Gerais, Mato Grosso) e nas plantations de café do Vale do Paraíba; (c) as conexões transnacionais entre fugitivos do Grão-Pará e as Guianas, onde negros e indígenas compartilharam territórios e estratégias.
Região Andina e Caribe Continental
Nos territórios da antiga coroa espanhola, a resistência tomou formas únicas. Desde o século XVI, os Palenques (como San Basilio) estabeleceram tratados de paz e autonomias territoriais. Analisamos lideranças como Benkos Biohó e o desenvolvimento de línguas crioulas (palenquero). Investigamos os Cumbes e Rochelas (assentamentos mistos de fugitivos, indígenas e desertores) em regiões como Barlovento, fundamentais para a economia do cacau.
Caribe Insular: plantation e montanha
Em Cuba, no coração da economia açucareira, o fenômeno dos Cimarrones em regiões como Matanzas e Santiago de Cuba, analisando sua relação com o auge do açúcar no século XIX. Em Jamaica, os Maroons e suas guerras contra os britânicos, resultando em tratados de autonomia que perduram até hoje.
As Guianas: liberdade na floresta
Um espaço chave de comparação transimperial (França, Holanda, Grã-Bretanha). Estudamos os Bush Negroes (como os Saamakas e Boni) e sua capacidade de recriar sociedades completas na floresta, mantendo tradições africanas e criando sistemas políticos complexos.
Arquivo Digital da Liberdade Atlântica
Este projeto não apenas interpreta o passado, mas o recupera digitalmente, por isso utilizamos ferramentas de vanguarda para processar grandes volumes de dados históricos dispersos em arquivos da Europa e das Américas. Trabalhamos com manuscritos dos séculos XVII a XIX de difícil leitura. Utilizamos a plataforma Transkribus e modelos de Inteligência Artificial (HTR – Reconhecimento de Texto Manuscrito) para transcrever fontes do Arquivo Geral das Índias (Sevilha), Arquivo Nacional do Brasil e outros repositórios. Não basta ler sobre os quilombos; é preciso localizá-los no espaço. Sobrepomos mapas coloniais antigos a mapas de satélite atuais. Estudamos rotas de fuga, proximidade com rios e montanhas, e a relação espacial entre comunidades fugitivas e as vilas ou plantations. Estamos digitalizando e indexando acervos de Espanha (Sevilha, Simancas), Brasil (Rio de Janeiro, Bahia, Maranhão, Pará), Países Baixos, Portugal e França.
“Mulheres cuidando de canas-de-açúcar na Jamaica, 1922”. From Peoples of All Nations, Their Life Today and the Story of Their Past, volume I: Abyssinia to the British Empire, edited by JA Hammerton and published by the Educational Book Company (London, 1922). Obras animadas com inteligência artificial (DeeVid IA).