O Projeto
Sob Hemisférios da Emancipação” (Edital Cientista do Nosso Estado – FAPERJ 2025) propõe uma mudança de paradigma: uma história atlántica comparada. Investigamos não apenas a fuga, mas a construção de coletividades rurais, famílias e culturas que desafiaram a ordem colonial e o pós-emancipação. Nosso foco abrange do século XVII ao XIX. Analisamos o surgimento de setores camponeses e comunidades sob diversas denominações:
(a) Brasil: Quilombos, Mocambos e Terras de Preto; (b) Caribe e Grande Colômbia: Palenques, Cumbes, Rochelas e Cimarrones; (c) Guianas e Caribe Inglês: Maroons, Bush Negroes e Marronage.
Objetivos Gerais:
1. Comparação hemisférica: contrastar experiências em territórios portugueses, espanhóis, ingleses, franceses e holandeses.
2. Do fugitivo ao camponês: investigar como essas comunidades se integraram economicamente, comerciando com cidades vizinhas e formando um campesinato negro que, muitas vezes, sobreviveu ao fim da escravidão.
3. Inovação metodológica: utilizar Humanidades Digitais para processar milhares de documentos coloniais e cartografia histórica, tornando-os acessíveis ao público.
Cartografia (Guiana Francesa)
[FR] Points de la carte:
(a) Village Poire Premier des Marons
(b) “Montagne de plomb ainsy nommee a cause du gravier noire, ce dont les negres se servent pour lachasse. Ce village est le 3me decouvert et celuy ou le Sr de Prefontaine attrappa a l’entree 2 negres marons pour luy servir de guide”
(c) “Montagnes du Saut. Cartier general des negres marons que Le Sr Depretontaine brula après les en avoir chassé, pris, tué conjointement avec le chevallier. Desilers a la valeur duquel il dut beaucoup en cette journée —”
[PT] Pontos do mapa:
(a) Vila Poire, Primeira dos Maroons.
(b) “Montanha de Chumbo, assim chamada por causa do cascalho preto, que os negros usam para caçar. Esta aldeia é a terceira descoberta e aquela onde o Sr. de Préfontaine capturou dois escravos fugitivos na entrada para servirem de guias. Duas outras aldeias descobertas.”
(c) “Montanhas das Corredeiras. “Quartel-general dos escravos fugitivos que o Sr. de Préfontaine incendiou após tê-los expulsado, capturado e matado juntamente com o Cavaleiro. Desilers, a cuja bravura ele muito devia neste dia—“
Produtos esperados
Entre os produtos centrais do projeto estará a visualização da dimensão geográfica da resistência e liberade, que permitirá analisar, de forma dinâmica, os territórios, deslocamentos e economias vinculados às experiências de liberdade.
Mapa de assentamentos: possibilitará explorar a localização de centenas de palenques, quilombos e rocelas documentados em diferentes regiões das Américas. O usuário poderá aplicar filtros por século, dimensão populacional, tipo de organização produtiva ou perfil econômico, permitindo identificar padrões de ocupação e estratégias territoriais ao longo do tempo.
Oferecerá a ativação de camadas temáticas que mostram a distribuição de cultivos como açúcar, café e cacau, bem como outras atividades econômicas relevantes. Essa sobreposição permitirá compreender como a geografia econômica e os regimes de trabalho influenciaram a emergência, localização e sustentabilidade de comunidades livres.
Rotas de liberdade: permitirá visualizar trajetórias de fuga, migração e circulação, incluindo movimentos transfronteiriços — como deslocamentos do Brasil para a Guiana Francesa ou da Colômbia para o Panamá. A ferramenta evidenciará tanto rotas consolidadas quanto circuitos menos conhecidos, ressaltando a agência dos sujeitos históricos na construção de redes de mobilidade.
A história não é apenas um assunto acadêmico; é vital para a identidade contemporânea e para a luta antirracista. Este espaço é dedicado a traduzir nossa pesquisa para escolas, movimentos sociais e o público em geral, em consonância com a Lei 10.639/03.
Recursos a serem disponibilizados:
Série de podcast: episódios narrativos curtos (3-5 min) contando histórias de personagens como Zumbi, Ganga Zumba ou líderes anônimos das rochelas.
Material didático: incluem planos de aula para ensinar História da África e Cultura Afro-brasileira utilizando mapas e documentos.
Videoteca: curtas animados e entrevistas com pesquisadores explicando conceitos-chave como “campesinato negro”, “territorialidade ancestral” e “terras de preto”.
Biblioteca aberta: acesso gratuito a livros, artigos e teses produzidos pela equipe do projeto.
Plan de Cuyaba, Mato Grosso y pueblos de los yndyos Chyquytos y S. Cruz Sacado por orñ. de el Senõr Governador D. Tomas de Lezo [ca.1778]. Obra animada com inteligência artificial (DeeVid IA).
Edmund Ollier, Cassell’s History of the United States (London, 1874-77), Vol.3, p. 91 . , “A slave-hunt,” this is an artist’s imagined scene showing an enslaved male being chased by white men on horseback; accompanies a discussion of slavery in the 1840s, but there is no specific reference to the illustration. Obras animadas com inteligência artificial (DeeVid IA).
Avisos de fugidos (Venezuela)
[ES] AVISOS.
El dia 18 se ha fugado un esclavo nombrado José del Carmen, color mulato obscuro, de tamaño regular, pies chicos pero anchos, bien hecho, bastante grueso, de edad como de 23 á 24 años, tiene una cicatriz en el pecho bien cerca del pescuezo, y los labios gruezos [sic]: el que lo cogiere ó diere razon de su paradero ademas de su paga y de abonar todas las costas de su cogida, se le dará su gratificacion y para esto se entenderá con su amo que lo es el Sr. Juan Crisóstomo Hurtado, y en su ausencia con su madre la Sra. María de la Luz Aristiegueta de Hurtado. Vive calle de la Union N. 28, entre la esquina de Pinto y la del Viento.
[PT] AVISOS.
No dia 18 fugiu um escravo chamado José del Carmen, de cor mulata escura, de estatura regular, pés pequenos mas largos, bem constituído, bastante corpulento, com idade entre 23 e 24 anos, tem uma cicatriz no peito bem perto do pescoço, e os lábios grossos: a quem o capturar ou der informações do seu paradeiro, além do seu pagamento e de cobrir todas as despesas da sua captura, ser-lhe-á dada a sua gratificação e para isso deverá entender-se com seu senhor, que é o Sr. Juan Crisóstomo Hurtado, e na sua ausência com sua mãe, a Sra. María de la Luz Aristiegueta de Hurtado. Mora na rua de la Union N.º 28, entre a esquina de Pinto e a do Viento.
Justificativa
O projeto justifica-se pela necessidade historiográfica de superar abordagens fragmentadas e estritamente nacionais sobre a escravidão e a liberdade nas Américas. Inovando ao adotar uma perspectiva transnacional e comparada, o projeto busca conectar as experiências de diversas comunidades de fugitivos — sob denominações como quilombos, maroons, mocambos, cumbes, rochelas e palenques — em regiões chave como Brasil, Colômbia, Venezuela, Panamá, Cuba, Jamaica e as Guianas. Ao analisar estas formações desde o século XVII até o XIX, a investigação permitirá identificar padrões hemisféricos de resistência e autonomia, bem como as especificidades locais, preenchendo uma lacuna significativa na História Atlântica ao colocar em diálogo as historiografias de colonização portuguesa, espanhola, francesa, inglesa e holandesa.
Além disso, a pesquisa é fundamental para compreender a gênese e a consolidação do campesinato negro nas Américas, analisando não apenas a ruptura com o sistema escravista, mas as continuidades econômicas e sociais no período de pós-emancipação. O estudo aprofunda-se em como essas comunidades, longe de serem isoladas, articularam economias próprias, redes mercantiles e estratégias de acesso à terra que perduraram após a abolição. Este enfoque é vital para entender os processos históricos de invisibilização e as disputas territoriais contemporâneas, oferecendo substrato teórico robusto para as reivindicações atuais de comunidades remanescentes e para o entendimento das dinâmicas agrárias e raciais que formaram as sociedades pós-coloniais.
Por fim, a relevância do projeto reside em sua metodologia interdisciplinar e no impacto social através das Humanidades Digitais. Este esforço não apenas enriquecerá o debate acadêmico nas áreas de História, Geografia e Antropologia, mas também fornecerá materiais essenciais para a educação pública (fortalecendo a aplicação da legislação sobre ensino de história da África e cultura afro-brasileira) e instrumentalizará movimentos sociais na luta por direitos, memória e cidadania.